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quarta-feira, novembro 14

Le Voyage Dans La Lune

À uns dias escrevi sobre televisão, na realidade tinha-me proposto escrever sobre um canal fantástico de que sou fã, e em vez de escrever sobre o segundo escrevi sobre o primeiro. A RTP2 sempre foi para mim uma mixórdia deliciosa, com momentos um pouco mais aborrecidos e com demasiado eruditismo é certo, mas no final deixa bom sabor na boca. O Onda Curta é dos meus programas preferidos. Foi relegado para um horário extremamente inconveniente, como muitos programas que mereciam melhor. Quase a procurar um pretexto para dizer: não as pessoas não gostam de magazines culturais, ninguém os vê.

Foi lá que descobri a história desta peça arqueológica do cinema. Le Voyage dans la Lune foi obra de um dos primeiros artífices do cinema, Georges Méliès, que se baseou na obra de outro visionário, Júlio Verne. As imagens a preto e branco deste filme fazem parte do nosso imaginário colectivo. Mas a cópia a preto e branco não era mais do que a cópia que melhor tinha resistido ao passar do tempo, uma das muitas bobines que foram produzidas numa época em que as facilidades das cópias digitais estavam ainda a anos-luz. Uma particularidade do cinema de Méliès é que para dar mais apelo visual aos seus filmes, nas melhores cópias o celulóide era pintado à mão para que quando fosse visionado numa sala os espectadores fossem agraciados com um verdadeiro universo de fantasia.

Restaram algumas cópias intactas de outros filmes que atestavam a veracidade histórica das técnicas usadas... Mas da viagem à Lua não sobrou nenhuma... Até que uma cópia em grave estado de conservação foi encontrada. A história do restauro é um bocado rocambolesca, e fascinante para mim devo admitir. Um empenho quase fanático do historiador que encontrou a bobine para a restaurar, e mais tarde a ajuda de técnicas digitais permitiu que hoje em dia possamos ver o filme tal como ele foi exibido na época. Os sinais do tempo não foram completamente apagados, a restauração não é perfeita, mas tal só contribui para nos identificarmos ainda mais com as pessoas que tiveram a sorte de presenciar os primeiros passos da magia do cinema. Ah e a banda sonora de uma das minhas bandas preferidas só ajuda.

sexta-feira, outubro 26

Shut Up and Play the Hits

Aproveitando o DocLisboa finalmente pude ver este filme à noite no LuxFrágil. Como fã dos LCD Soundystem, e seguidor devoto que nunca teve oportunidade de os ver ao vivo, à imenso tempo que esperava a oportunidade. Infelizmente devido a factores que me escapam, políticas editoriais possivelmente, só ontem de se deu a ante-estreia em Portugal. A escolha do espaço creio que é uma novidade, mas devido à temática enquadra-se perfeitamente.

É óbvio que uma discoteca não é uma sala de cinema, nem é facilmente adaptável. ainda por cima a pequena multidão que foi atraída fez com que assistir ao filme não fosse uma experiência cómoda, antes pelo contrário, as pessoas apertavam-se e atropelavam-se para improvisar um assento. Ou arriscavam um torcicolo para encontrar uma linha de visão para um dos ecrãs que enchem o piso superior. A verdade é que assistir a um concerto nunca é cómodo, muito menos um concerto onde a sala está cheia, temos de transcender o desconforto físico e deixar-nos levar pela música e fundir-nos na multidão. Para mim no computo final esta escolha foi desconfortável mas brilhante.

O filme supostamente é sobre o fim da banda, o último concerto que marca o fim de um fenómeno meteórico e inesperado. Com efeito este é o cenário em que tudo se passa, mas o tema central é James Murphy. Uma pessoa normal que gosta de ser uma pessoa normal, fazer música porque gosta. Uma estrela da música tardia, que teve o seu grande sucesso já perto dos 40. Através de uma janela de alguns dias fomos projectados para uma vida normal, com as suas alegrias e tristezas, preocupações normais, frustrações e triunfos. Alguém que se considera estranho e que gosta de fazer coisas estranhas. Para quem quiser tentar ler a moral da história há uma mensagem de esperança e de  humildade, rodeia-te dos teus amigos, faz o que gostas, dá tudo.

Este documentário é algo mais que um documentário sobre uma banda ou um concerto, é uma reflexão sobre a arte, e o que nos percorrer novos caminhos, chegar mais além. E claro sobre a natureza humana.

quinta-feira, novembro 24

Sangue do meu sangue

Decidi ir ver este filme enquanto ouvia uma entrevista a Anabela Moreira, uma das atrizes principais, no programa Fala com Ela na Radar. Sou um fã assíduo da Inês Menezes, e sempre que posso escuto o programa. Acontece que nesse dia apanhei o programa a meio, sem saber quem estava a ouvir, mas quando comecei a ouvir falar do último filme de João Canijo fiquei imediatamente interessado.

Ao falar sobre o filme Anabela refere que planeou viver quinze dias na casa onde se rodou o filme, acabando por ficar três meses. Tempo que passou entre vários sentimentos, angústia, medo, empatia com os vizinhos do lado. Começou com a casa inteiramente abandonada e em condições deploráveis onde Rita Blanco apanhou sarna no primeiro ensaio. Ao longo do tempo a casa foi sendo restaurada e mobilada de forma a poder servir de lar às personagens do filme.

Admiro imenso a capacidade que os verdadeiros atores têm de entrar na pele de um personagem. Deixar de ser eu para começar a ser ele. Não falo só de vocabulário, sotaque, ou gestos. Falo também em mudanças físicas, engordar ou emagrecer, ficar com uma pele pouco saudável. Trazer na fronte a marca de uma tristeza que está ancorada nos sentimentos de alguém que não somos nós.

Quando entrei na sala as minhas expectativas eram altas. Até me dei ao luxo de escolher a versão longa do filme. Valeu a pena. Quando o intervalo apareceu eu estava completamente colado à cadeira, olhei para o relógio e já tinham passado quase duas horas... O espetador é transportado para o Bairro do Padre Cruz, torna-se mais um dos vizinhos, um dos habitantes daquela casa. Vários truques cinematográficos para isso contribuem, os planos com múltiplas cenas e reflexos, os constantes diálogos cruzados nem que seja com o barulho dos vizinhos obrigam-nos a estar sempre extremamente atentos. Os cenário são magníficos, perfeitos, porque não são cenários. São as casas e as ruas do bairro. Os figurantes são os habitantes do bairro. A fotografia dá o suporte técnico para que a fealdade deste mundo se torne bela quando foca de perto os dramas pessoais das pessoas.

Mas voltando aos atores e à sua relação com os personagens, as interpretações são magníficas, com especial destaque para os membros da família. O sentimento de realidade, nua e crua em que mergulhamos é amplificado quando nos reconhecemos no dia a dia familiar. Há muitas coisas que parecem estranhas de início, mas todos somos estranhos não é? A longo do filme o argumento vai-se desenrolado e a história acabar por contorcer-se de tal forma que se assemelha ao enredo duma telenovela venezuelana. Mas mesmo assim o sentimento de realidade e de empatia com as personagens não é suspenso. Aproximamos-nos cada vez mais duma conclusão inexorável, a vida continua, é preciso ter força fazer o que é preciso.

Para mim este filme está à altura de grandes obras do cinema dos últimos anos, como Magnólia e American Beauty. E comparo-o diretamente com eles porque trata do mesmo tema, da natureza humana e dos grandes dramas que estão encerrados no simples quotidiano do dia a dia.

sexta-feira, julho 30

Uma Luta, Uma Mensagem


Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento, agradeçam e não deixem nada por dizer.
António Feio

quinta-feira, maio 6

Fantasia Lusitana

Este era um dos títulos que mais me atraía no cartaz do Indie Lisboa este ano. O filme de João Canijo protagonizou a cerimónia de abertura, e por isso mesmo as entradas esgotaram num ápice. Também não pude ir à segunda sessão englobada no festival, a agenda era incompatível com horários de expediente. Felizmente esta produção nacional está a ser exibida no Campo Pequeno, e é de aplaudir a visão do programador porque foi ontem numa sala quase cheia que assisti ao filme.

Fantasia Lusitana debruça-se sobre a Lisboa neutral que vivia em alegria enquanto o resto da Europa se debatia num conflito sangrento. Ou assim parece inicialmente, a imagem oficial do regime mostra um Portugal forte e orgulhoso, um povo agradecido à perícia diplomática de Salazar por ter sido poupado às vicissitudes da guerra. Mas à medida que as imagens de arquivo e os comentários deliciosamente fabricados pela máquina do regime vão desfilando apercebemos-nos que algo está terrivelmente errado. Há momentos hilariantes, mas é de profunda tristeza o sentimento preponderante, o sabor que nos fica na boca ao final é amargo.

A paz em que Lisboa está mergulhada é uma paz podre, um peso ostensivo paira sobre a cabeça de todos. Os refugiados que enchem as ruas e esperam em filas intermináveis na esperança de resolver a sua situação. Lisboa para eles é apenas um ponto de passagem numa fuga que terminará noutro sítio. Existem vários tipos de refugiados, uns que não têm nada no mundo, outros que procuram desesperadamente alguém, até os ricos e aristocratas que se perdem em festas e idas ao casino na pretensão de estar a fazer umas férias da guerra. De pano de fundo uma populaça pobre e analfabeta, um Estado que se orgulha dos feitos históricos de Portugal e os apregoa, não tendo mais nenhum meio de defesa do que encher o peito.

Uma das únicas críticas que tenho a apontar ao filme é que não se tenha juntado ao testemunho das várias personalidades de outros países que passaram por Lisboa nesses tempos o testemunho dos locais. O ponto de vista local que é exposto é o do regime, mas com uma ironia impossível de disfarçar, mostrando sempre a fantasia à beira de desmoronar. Por outro lado talvez seja essa mesma a óptica do filme, mostrar de uma forma estanque a estranheza com que um desses peregrinos em fuga encarava o cenário à volta dele. O país estranho feito de fachadas de papier-mâché, onde as luzes continuam a brilhar à noite sem medo dos bombardeamentos, mas onde os fantasmas se arrastam incessantemente como no purgatório.

O filme apesar de não estar na lista de premiados do Indie 2010 merece de sobra a visita a uma sala de cinema. Aliás merece também retê-lo para mostrar aos nossos aos nossos filhos, anos nossos pais e aos nossos avós. Temos fraca memória, depressa esquecemos, mas aqui é possível reconhecer de forma inequívoca a personalidade portuguesa.

Parabéns ao João Canijo por ter a coragem de espicaçar a nossa memória colectiva. E um abraço ao Hugo dos Santos que foi quem fez a selecção das imagens de arquivo.

quinta-feira, abril 23

Em Nome do Pai

A polémica do atentado aos direitos do homem na luta anti-terrorista ficou ultimamente em segundo plano em relação a notícias mais prementes, como a crise económica. Mas o facto é que as tentações para atentar aos direitos civis em nome da luta contra o crime, a droga, o terrorismo ou qualquer outro terror sem nome não desapareceram da nossa sociedade. Muitas vezes para confortar a opinião pública anunciam-se medidas de excepção, sem pensar muito bem nos efeitos e nas consequências, sobre os suspeitos e sobre a população em geral.

O filme "In the Name of the Father" trata sobre uma destas situações. A base do filme é a auto-biografia de Gerry Conlon, um dos Guildford Four, quatro pessoas injustamente condenadas por um atentado do IRA em Guilford em 1974 que matou 5 pessoas e feriu 65. Estas pessoas e parte das suas famílias passaram anos na prisão, inclusivamente o pai de Gerry morreu na prisão, daí o título. Anos mais tarde, foram ilibados e libertados, sem fazer muito alarido de modo a não prejudicar a imagem do sistema judicial inglês. Além do filme ser muito bom, serve para abrir os olhos para os perigos da tentações totalitárias, mesmo em sociedades democráticas ocidentais.

quinta-feira, agosto 21

The Dark Knight

Fui finalmente ver o cavaleiro negro, a última encarnação cinematográfica de Batman esta semana. Christopher Nolan depois de criar (e muito bem) o princípio do morcego parece que começou de uma folha em branco. Os filmes anteriores de Batman foram ignorados e qualquer seguimento cronológico ou das histórias dos personagens foi quebrado. Não é nada de chocante, afinal trata-se de banda desenhada, acontece a toda a hora. Especialmente com esta personagem que já teve inúmeras reinterpretações. Nolan está a criar o seu Batman, e francamente é o melhor Batman que já chegou às salas de cinema.

As nuances da personalidade torturada do vigilante foram muito bem recriadas. Mas há mais muito mais, dentro de todos os elementos que dão a atmosfera mais negra que algum filme do Batman teve, tenho de dar destaque a Heather Ledger. Depois de andar a fazer filmes de paneleiros o homem confirmou que era um actor tremendo. Comparado com este Joker psicótico e maníaco, o de Jack Nicholson era um menino do coro. Não vou revelar nada sobre o enredo, é bom demais para que eu faça esse atentado. Apenas vou dizer que o objectivo do arqui-inimigo de Batman é nada mais nada menos que a anarquia total, a destruição da civilização, e o mais brilhante é que é credível. Quando me levantei do assento estava maravilhado, veio-me imediatamente à cabeça a novela gráfica Arkham Asylum, uma grande obra prima dum género menor. E com efeito ao procurar comentários sobre o livro de quadradinhos pude ler que foi nele que Ledger se inspirou para criar uma das personagens mais terríveis da história do cinema.

terça-feira, maio 6

Monstra 08

Com o Indie Lisboa terminado, vai começar outro certame que pode ser de interesse para os cinéfilos lisboetas e não só. O 7º Festival de Animação de Lisboa, carinhosamente apelidado de Monstra, vai decorrer entre 8 e 18 de Maio. As salas que vão receber os filmes são mais ou menos as mesmas que participaram no Indie. Além da dimensão cinematográfica, existem actuações de Dj's e Vj's ao longo das noites do festival.

quarta-feira, abril 23

Indie Lisboa'08

Começa amanhã o quinto festival de cinema independente de Lisboa. Com a programação dividida entre o Cinema São Jorge, o Fórum Lisboa, o Cinema Londres e o Teatro Maria Matos vão ser exibidos filmes e vão acontecer palestras. Além das secções de competição oficial existem espaços para a divulgação do que se faz por outras bandas, e um certame especialmente dedicado aos mais novos o IndieJúnior. Podem consultar todos os detalhes no página oficial, ou no jornal do Indie onde entre outras coisas se pode encontrar a sinopse dos filmes em exibição.

quinta-feira, abril 10

Cine Parq na ZBD

Ontem tive oportunidade de ir assistir ao filme Vanishing Point ao espaço Zé dos Bois. O filme foi o primeiro de um ciclo que a revista Parq está a organizar em colaboração com a ZBD. Os filmes num total de três (portanto só faltam mais dois) são exibidos à quarta-feira no espaço de ZBD no bairro alto, a entrada é gratuita. A selecção foi feita por Mário Valente, e podemos encontrar filmes carregados de música que dificilmente encontraremos numa sala de cinema normal.

quinta-feira, fevereiro 14

Wild at Heart

Hoje à noite a Cinemateca dá-nos a oportunidade de rever mais um filme de culto, desta vez um dos meus favoritos de David Lynch, Wild at Heart.

Deve ter qualquer coisa a ver com o dia dos namorados.... eu também queria era fugir para estar com o meu amor...

quarta-feira, janeiro 9

Persepolis

Uma das poucas (mas boas) ofertas que recebi este Natal foi o livro Persepolis, de Marjane Satrapi. Sem dúvida quem fez a oferta pensou no meu gosto pela BD, não sei até que ponto os meus sogros me conhecem, mas acertaram em cheio (obrigado Carmen e Ricardo). O livro de cariz autobiográfico relata a vida e as experiências da autora, que está intimamente ligada a um país e uma cultura, digamos antes à opressão de um país e de uma cultura. Satrapi nasceu no Irão, quando este ainda era governado pelo Sha. Logo nas primeiras páginas ficamos a saber um pouco mais sobre a história milenar da Pérsia, e de como convulsão atrás de convulsão o grande império dos tempo antigos se transformou num regime islâmico e opressor depois de ter sido espremido pelas garras avarentas do Ocidente.

Mas o centro da accção é a própria autora, após crescer numa família liberal e letrada, e estudar no liceu francês de Teerão dá-se a revolução islâmica que transforma toda a vida no país. Vê.se de repente a usar véu, presencia a estranha e súbita mudança de discurso dos professores. Ao estalar a guerra os pais, prudentes, mandam-na para Viena onde prosseguem as peripécias da jovem menina. A adolescência num país estranho e desprovida de amigos verdadeiros deixam as suas marcas. Marjane passa por ser aluna brilhante para acabar a dormir na rua e quase morrer de pneumonia. Fora do seu país sente-se exilada, quando acaba por retornar descobre que o fundamentalismo está a estrangular o seu país, descobre que não há nada para que voltar.

Originalmente esta saga foi publicada em quatro volumes, mas na edição que me chegou estão todos compilados num único. Confesso que a parte que mais me fascinou da narrativa foram os primeiros anos, em que a personagem principal ainda é uma menina. Fascinou-me a sua visão do mundo e dos adultos, distanciada das mentiras e das reviravoltas da politica e dos interesses internacionais que acabam por desembocar na desgraça do seu povo. Em termos técnicos os quadradinhos que dão corpo à obra não são nenhuma proeza, no entanto cumprem perfeitamente o papel de nos transportar até ao mundo simples e expressivo em que vive a menina. Tenho a versão em espanhol desta obra, desconheço completamente se existe em português, mas aconselho. Entretanto a autora já publicou muitas outras obras, relacionadas com o Irão e não só, mas um dos últimos projectos foi a adaptação cinematográfica de Persepolis (em desenho animado), quero ver!

sexta-feira, outubro 5

25 Anos a Caçar Andróides

Em devida altura fiz aqui a minha pequena homenagem ao aniversário do filme Blade Runner, um filme de culto para muitos e para mim. Na altura suscitou alguns comentários, e pela análise que faço regularmente das estatísticas deste humilde folhetim, houve bastante pessoas interessadas no tema.

Aparentemente Ridley Scott não ficou satisfeito com o director's cut lançado em 1992 e voltou de novo ao que considera uma das suas obras maiores. Vai ser lançada uma nova versão da longa-metragem em que foram aprimorados mais alguns detalhes, e pelo que dizem foram restituídas mais algumas cenas que foram extirpadas pelo estúdio no lançamento original. O autor explica tudo numa longa entrevista à Wired. A estreia vai ser nos cinemas americanos em Novembro, a edição em DVD (que contem 5 discos) vai sair em Dezembro. Para os fãs, já é possível fazer uma pré-encomenda na Amazon.

terça-feira, setembro 25

Festival de Microfilmes de Lisboa

Descobro hoje, por completo acaso, que a Produções Fictícias está a organizar um festival muito peculiar. O Festival de Microfilmes de Lisboa vai decorrer 1 e 2 de Dezembro de 2007, no Cinema São Jorge em Lisboa e a 8 de Dezembro no Passos Manuel no Porto. Mas já podemos mandar os nossos microfilmes, até 14 de Novembro. A ideia é que o comum dos mortais se arme em realizador, pegue no telemóvel ou na máquina fotográfica e faça uma curta que depois será apreciada em concurso. Para quem gostar de cinema, e se quiser armar em realizador basta consultar o regulamento, os prémios são apetitosos. A ideia tem a colaboração do portal Sapo, já que os vídeos enviados para o certame estão alojados no Sapo Vídeos. Uma iniciativa bastante original, espero que tenham bastante êxito. Não sei se vou participar, mas vou recomendar pelo menos.

sexta-feira, junho 29

Fora de Catálogo (continuação)

Ontem consegui o milagre de sair a horas do trabalho (às horas que o horário estabelecido dita) e propus-me descobrir um pouco mais de Madrid e ir visitar o PhotoEspaña 2007, certame que dura até 22 de Julho e engloba várias exposições e actividades espalhadas pela capital espanhola e outros sítios. Não consegui ver grande coisa, apanhei várias exposições a fechar, vou ter de dedicar mais tempo a visitar a cidade e os pontos que compõem o circuito oficial.

Mas com um pouco de tempo nas mãos e no meio de Madrid decidi prosseguir a minha demanda de que já tinha falado aqui. Comecei pela Fnac, queria ver se aqui a política usada para definir o catálogo era a mesma, mas também bati com o nariz na porta. Pelo menos o horário é diferente, pelos vistos durante a semana fecham às 21:00. Fui direitinho ao Corte Inglês, não fosse ficar à porta de novo (já um pouco frustrado com a situação para dizer a verdade). Mas vá lá, safei-me, tive até às 22:00 para prosseguir os meus propósitos. A verdade é que também não consegui comprar o filme, "Tenéis una peli que se llama gato negro, gato blanco?" - "No lo siento, está agotada". Fiquei frustrado à mesma, mas um pouco mais feliz, pelo menos Kusturika não foi votado ao ostracismo aqui. E mais, ainda consegui apanhar uma grande surpresa, ao encontrar mais produção portuguesa do que encontraria em Portugal. Encontrei por exemplo um pack de oito DVD's de Manoel de Oliveira com alguns dos mais importantes filmes da sua carreira, que me deixou estupefacto. Sinceramente não consigo compreender o paradoxo, os espanhóis nacionalistas como poucos, dão mais atenção à obra portuguesa do que nós próprios.

Seremos um povo assim tão idiota? Sempre prontos a acolher o que vem de fora, e a desprezar o que é nosso?

terça-feira, junho 26

Blade Runner

Ontem um dos meus filmes preferidos fez 25 anos, para mim Blade Runner é uma das melhores longas metragens de sempre e mantém-se perfeitamente actual. Ridley Scott baseou-se numa das novelas de Phillip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep? para nos falar de um futuro que se revela cada vez mais próximo. A ficção científica não tem necessariamente de ter batalhas espaciais, tele-novelas épicas com sabres-luz, nem bicharada repulsiva e ansiosa por comer os protagonistas (ver Alien do mesmo realizador). Trata-se sim de investigar as repercussões sociais e eticas da evolução da tecnologia e pôr perguntas sobre as mudanças que o nosso mundo e nós vamos sofrer. Este filme põe perguntas profundas, sobre a própria natureza humana, e o que define a humanidade e a auto-consciência.

Podemos destacar do filme além da visão que ele nos dá para o futuro a mestria técnica evidenciada. Ainda hoje os efeitos especiais são impressionantes conseguindo criar ambientes realistas através de técnicas e esquemas que hoje em dia já foram quase postos de parte dando lugar à imagem gerada por computador. Os ambientes deste filme conseguem-nos transportar para uma realidade alheia, um futuro verdadeiramente credível e algo assustador. Até podemos reconhecer detalhes que já se tornaram realidade como os ecrãs gigantes que tomam toda a fachada dum edifício.

A premissa para o desenrolar da história é simples, no futuro seremos capazes de nos replicar a nós próprios, produzir andróides que são humanos em todos os sentidos. Menos na origem. Será que tal criatura pode ter alma? Sentir? Amar? Como é normal nos homens o conflito ocorre quando essas criaturas são segregadas pela diferença, não reconhecidas como iguais, relegadas para a submissão. Será que está assim tão longe o estádio da evolução humana em que deixaremos de conseguir controlar o que criamos? Ou até que consigamos criar alguma entidade mais inteligente que nós... Podemos encontrar um paralelo óbvio com a clonagem, mas podemos ir mais longe, o genoma humano já foi sequenciado quanto tempo falta até que consigamos produzir humanos sob encomenda? Como faremos depois para encarar as criaturas que criámos? Lidar com estas questões leva-nos a olhar para nós próprios e para as nossas limitações.

I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.

quarta-feira, junho 20

Fora de Catálogo

A propósito dos Shantal e Bucovina Orkestar, estava eu a tentar definir o seu estilo de música a alguém e como já disse anteriormente a comparação possível que me ocorreu foi a música de Emir Kusturica e dos No Smoking Orchestra. Ora para o meu interlocutor (no caso interlocutora) o realizador e músico também era desconhecido, depressa a conversa divagou para os méritos e talentos cinematográficos deste senhor. Em concreto fartei-me de falar do Underground, e do Gato preto, gato branco. Numa passagem pela Fnac, e num impulso consumista, dispus-me a comprar algum dos filmes para presentear a tal pessoa.

Fartei-me de procurar nas estantes e escaparates, estava na loja do Chiado, e a organização da secção de vídeo (pelo menos nessa sucursal é péssima). Parece que os filmes estão divididos por filmes em saldo, filmes americanos e filmes clássicos. As séries americanas também lá estão com grande destaque. Produção nacional? Nem vale a pena falar disso... Depois de procurar 10 minutos, a minha paciência esgotou-se, e dispus-me a esperar outros 10 para falar com a pessoa que estava a atender ao público nessa secção. Lá chegou a minha vez, e lá expus a minha questão. Andava à procura do "Gato Preto, Gato Branco" em concreto, muito atencioso e simpático o encarregado demonstrou saber de cinema, imediatamente (sem consultar o stock nem nada) me disse que o filme tinha saído de catálogo. A minha cara de estupefacção foi respondida com um certo ar resignado, não consegui evitar perguntar, "saiu de catálogo? isso quer dizer o que? já não se vende?" - "Pois, já saiu de catálogo à dois anos".

Eu frequento a Fnac porque mesmo assim são eles que me conseguem oferecer uma escolha mais ampla em termos culturais, e onde ainda se vão conseguindo encontrar as coisas. Mas mesmo assim a escolha é redutora, o mercado nacional está excessivamente populado com produção externa (mais concretamente americana). A desatenção à produção europeia, e pior ainda nacional é gritante. Outro exemplo disto tive-o à tempos antes dos CSS ficarem extremamente conhecidos e terem concertos marcados para Portugal era impossível comprar um CD deles (depois ainda se chateiam da malta arranjar as coisas em mp3 pirata). O que mais me chateia é que não encontro loja alguma que dê atenção a isto, o catálogo é todo o mesmo. A Valentim de Carvalho, loja e distribuidora nacional em declínio resolveu copiar tudo da Fnac, incluindo meter cafés dentro das lojas, quando na realidade o que deviam fazer era distinguir-se fornecendo um produto mais adequado ao mercado português que supostamente conhecem melhor. Mas não, acho que não, hoje em dia a Valentim não deve passar da subsidiária portuguesa da EMI. Mal por mal, ainda prefiro os franceses da Fnac que pelo menos são europeus.

Não sei se esta orientação para a produção americana (em termos de música e de audiovisual) e o desprezo pela produção nacional é um mal nacional. Mas estou seriamente inclinado a pensar que sim. O termo de comparação que posso usar com propriedade é o caso espanhol, onde o destaque dado à produção autónoma é incomparável. Importa mudar isto, se mais alguém discorda do estado de coisas hoje em dia, descruzem os braços e ponham-se em campo. Há coisas que podem ser feitas, coisas bastante simples como levantar a voz apenas. Apresentar uma reclamação ou ir aqui deixar a opinião.

sexta-feira, março 9

SXSW 2007

Começa hoje, o South by Southwest 2007. Além de toda a informação e artigos que se podem encontrar na homepage está lá a música para ouvir, vale a pena.

quinta-feira, dezembro 14

Música no Coração (ao estilo La Féria)

Em Portugal existe a ideia generalizada de que não existe acesso à cultura, ou que este é muito difícil. Somos todos uns pategos incultos, e que sempre o seremos porque somos pobres, no espiríto e no bolso. Isto para mim são balelas. A maioria das pessoas está-se nas tintas para a arte, isso é verdade, o que acontece é que os eventos que existem são dirigidos a esta ou aquela elite e não ao público em geral. Hoje estou aqui para escrever sobre teatro, e esta arte é um exemplo perfeito do que estou a falar. Existem inúmeros teatros em Lisboa, alguns no Porto, fora disso poucos, já estamos habituados às assimetrias regionais e isto parece natural, mas não é. Aqui caberia talvez aos municípios estimular a criatividade a nível local mas outros valores se impõem, é pena. Outro lado da questão, numa dada altura pode haver muitas peças em exibição, mas os grandes êxitos com "sucesso generalizado" (alguma ou outra peça que o zé povinho já ouviu falar) contam-se pelos dedos das mãos. As encenações de Filipe La Féria têm o dom de conseguir essa proeza, chegar não apenas ao clube restrito dos intelectuais e dos ricos que se gostam de ir pavonear para o teatro (estes são cada vez menos, hoje em dia há sítios mais in como o Casino) e conseguir que todo o Portugal oiça falar das suas peças. Desde já merece ser felicitado por isso.

Já não pisava um teatro à montes de tempo (desde o ano passado), que vergonha, um tipo com delírios pseudo-intelectualóides como eu e que não é frequentador habitual dos palcos devia era levar umas pancadas de Molière na tola como castigo. No outro dia tive a oportunidade de me redimir, uma amiga propôs-me a visita ao Teatro Politeama para vêr a adaptação aos palcos portugueses do clássico do cinema Música no Coração. Ela, fã incondicional do filme, e possuidora duma cópia que revê a intervalos regulares decidiu levar a filha ao teatro pela primeira vez, eu tive todo o gosto em acompanha-las. A pequena ficou impressionada, pode dizer-se até embasbacada com o teatro, o edifício, as luzes, os trajes, os actores, o desenrolar do pano e da acção. Como ela havia muitos espectadores de tenra idade na plateia. Espero que tenham ficado convertidos, precisamos ir buscar mais fãs dos Morangos com Açúcar e mostrar-lhes o que são actores a sério...

Mas vou falar da peça em si, já basta de divagar. O argumento é fiel à história original, a pequena noviça ingénua que gosta de bailar e cantar causa reboliço no convento e mandam-na tomar conta dos sete filhos do capitão Von Trapp, partir daí a história desenrola-se como todos sabemos. A nós calhou-nos assistir à interpretação de Lúcia Moniz, que se reveza com a Anabela no papel principal. Eu ia um pouco à espera de me aborrecer das cantorias a meio do musical, mas isso não aconteceu, todas as canções foram adaptadas ao português de forma excelente. Surpreendi-me com as capacidades interpretativas da actriz principal, de tal forma que não dei pelo tempo passar. A caracterização também é fiel ao original, com os trajes e os cenários a fazerem-nos lembrar a película. A propósito de cenários, convém dizer que todos os truques de cenografia ainda vêm trazer mais riqueza a todo o conjunto. Pequenas surpresas como quando o quarto da protagonista, que é no sótão, aparece vindo de cima e fica suspenso sobre o cenário da cena anterior. O desenrolar da acção leva ao sabido final feliz, mas creio que em toda a plateia ficou reavivado o sentimento de ingenuidade e fantasia que se experimenta ao ver o filme pela primeira vez. No fim foi o público que deliciou os intervenientes na peça com uma ovação em pé, bem merecida diga-se de passagem.

Como comentário final posso dizer que estou a pensar convidar as minhas duas acompanhantes para ir ao teatro de novo, também ao Politeama, ver a adaptação de outro clássico com o cunho La Féria que por lá passa nestes dias, o Principezinho.

segunda-feira, outubro 23

Filme da Treta

A dupla toni e zézé já passou pela rádio, pelo teatro, pela televisão, e agora pelo cinema. Assim que ouvi falar da existência de um Filme da Treta, deu-me logo a curiosidade, pelos vistos não foi só a mim, o filme estreou com recordes de audiências. Eu cá não pude ir na semana de estreia, só este sábado tive opurtunidade de pegar no meu King Card e ir até ao Alvaláxia vêr o filme. Sim porque os senhores da Medeia fizeram birrinha e chatearam-se com os da Millenium, quem ficou a perder foram os otários como eu que compraram o famigerado do cartão e que agora estão limitados aos filmes generalistas que passam no cinema-estádio.

Mas vamos lá ao que interessa, o filme, que para ser sincero é mesmo uma granda treta. Eu sou um admirador de José Pedro Gomes e António Feio, mas sinceramente o tipo de humor a que me habituaram não está presente neste filme. Ou por outra, está e não está, os trocadilhos, as piadas piadas nonsense, e os lugares comuns sobre uma Lisboa bairrista e brejeira estão lá. Mas as piadas inteligentes, as mensagens relativas a este ou aquele tema da actualidade, a crítica social, isso está ausente.

Eu tenho o hábito (para a maioria das pessoas um grande defeito) de fazer julgamentos muito rápidos sobre as coisas. Às vezes engano-me claro, mas desta vez acertei. Logo a abrir, o genérico pareceu-me um rip-off mal enjorcado dos Monty Python. A sequência inicial do filme só confirmou a suspeita. Há algumas cenas lá pelo meio que até estão bem sacadas, mas a longa metragem não tem qualquer fio narrativo. Os elementos narrativos que aparecem aqui e ali são totalmente desconexos e servem apenas para justificar a introdução dos mesmos trocadilhos que já ouvimos vezes sem fim, sempre à custa de frases sem nexo inspiradas no Zézé Camarinha e pontapés na gramática. O público em geral até achou graça, suponho que é bom, pelo menos é uma produção lusa a que está a fazer dinheiro nas bilheteiras.